19.2.13

O dia de hoje marca o regresso do Channel 57, mais de 5 anos após a última mensagem. Ao longo deste tempo de silêncio, fui recebendo vários pedidos para reactivar o blog, pedidos esses que, quer pela real falta de tempo, quer pela latente preguiça, foram sendo sempre adiados. Até que esta semana recebi um email que me fez voltar a carregar esta página, e cá estamos outra vez. Como um velho lutador, que todos, inclusivé ele próprio, julgavam acabado, eis que volta para tentar encontrar uma razão para continuar. Como diz o Jorge Palma, "enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar", e enquanto houver histórias para contar, cá estaremos para as colocar na língua de Camões.

O regresso não será feito com uma canção do "Wrecking Ball", mas sim com uma grande canção sobre regressos, sobre fantasmas do passado, sobre desilusões, sobre a luta permanente de um homem com o seu passado, e com a fé e a esperança que nos faz continuar. Senhoras e senhores, no Channel 57, "The Wrestler"...


"The Wrestler" (2008)

O Lutador





Algum dia viste um pónei que sabia fazer um truque, no campo tão feliz e livre?
Se algum dia viste um pónei que sabia fazer um truque, então viste-me a mim
Algum dia viste um cão aleijado a descer a rua?
Se algum dia viste um cão aleijado, então viste-me a mim

(Então viste-me a mim) Eu venho e fico em cada porta
(Então viste-me a mim) Eu sempre parto com menos do que tinha antes
(Então viste-me a mim) Mas eu consigo fazer-te sorrir quando o sangue atinge o chão
Diz-me amigo, pode-se pedir algo mais do que isto?
Diz-me, pode-se pedir algo mais do que isto?

Algum dia viste um espantalho, cheio de nada mais do que pó e ervas daninhas?
Se algum dia viste esse espantalho, então viste-me a mim
Algum dia viste um homem com apenas um braço, a esmurrar nada mais do que a brisa?
Se algum dia viste um homem com apenas um braço, então viste-me a mim

(Então viste-me a mim) Eu venho e fico em cada porta
(Então viste-me a mim) Eu sempre parto com menos do que tinha antes
(Então viste-me a mim) Mas eu consigo fazer-te sorrir quando o sangue atinge o chão
Diz-me amigo, pode-se pedir algo mais do que isto?
Diz-me, pode-se pedir algo mais do que isto?

Destas coisas que me deram conforto eu fujo (nada mais)
Neste lugar que é a minha casa eu não posso ficar (nada mais)
A minha única fé está nos ossos partidos e nas feridas que exibo

Algum dia viste um homem com apenas uma perna, a tentar dançar a caminho da liberdade?
Se algum dia viste um homem com apenas uma perna, então viste-me a mim

21.11.07

Ao ver a capa de "Magic", bem antes de ouvir as canções, o ar de Springsteen na fotografia deixava antever um album marcadamente político, musculado e vincadamente crítico à administração norte-americana. Afinal, como viemos a verificar, não foi bem assim. Mas há uma canção no album que é melhor representada na fotografia da capa do que qualquer outra: "Last to die". É também uma das favoritas do universo Springsteen neste album (no qual eu me incluo). As semelhanças com "Roulette" não são pura coincidência, quer na fúria e desespero das palavras e dos protagonistas, quer no tom da parte musical. Uma das grandes canções de "Magic" e um dos momentos altos dos concertos da actual digressão. Um autêntico "murro no estômago" da administração norte-americana. Quem será o último a morrer?

"Last To Die" (2007)

O Último A Morrer



Percorremos a auto-estrada até o caminho se tornar negro
Tínhamos marcado "Verdade ou Consequências" no nosso mapa
Uma voz vagueou a partir do rádio
E eu lembrei-me de uma voz de um tempo distante

Quem será o último a morrer por um erro
O último a morrer por um erro
Cujo sangue irá ser derramado, cujo coração irá quebrar
Quem será o último a morrer, por um erro

Os miúdos dormem nos bancos de trás
Estamos apenas a contar as milhas, tu e eu
Nós já não medimos o sangue que derramámos
Nós apenas empilhamos os corpos à nossa porta

Quem será o último a morrer por um erro
O último a morrer por um erro
Cujo sangue irá ser derramado, cujo coração irá quebrar
Quem será o último a morrer, por um erro

Os homens sábios foram todos enganados
O que podemos fazer?

O sol põe-se em chamas enquanto a cidade arde
Mais um dia que se abate enquanto a noite aparece
E eu guardo-te aqui no meu coração
Enquanto as coisas se desmoronam

Uma janela na baixa inunda-se de luz
"Rostos dos mortos às cinco"
Os olhos silenciosos do nosso mártir
Suplicam aos condutores enquanto passamos

Quem será o último a morrer por um erro
O último a morrer por um erro
Cujo sangue irá ser derramado, cujo coração irá quebrar
Quem será o último a morrer?
Querida, irão os tiranos e os reis
Cair sob o mesmo destino?
Enforcados às portas da tua cidade
Quem será o último a morrer, por um erro

1.10.07

"Magic" está disponível nas lojas a partir de amanhã. O C57 associa-se ao lançamento com a canção q dá nome ao álbum. É simultaneamente, e na minha opinião, uma das melhores do álbum. Fala de ilusão. Fala daquilo que o narrador acredita q acontecerá ("Isto é o que será"). E fala da realidade. Mas não será redutor pensar que esta canção se restringe à situação actual da administração norte-americana? Será que não podemos transpor isto para a nossa própria cultura ocidental onde cada vez mais as ilusões e as realidades ditas virtuais têm um papel cada vez mais preponderante nas nossas sociedades, onde cada vez mais tentamos projectar imagens (ilusões) de nós próprios que não correspondem à realidade, mas sim àquilo que queríamos que esta fosse? Mais uma vez, a genialidade de Springsteen permite várias interpretações de uma canção. Não confies em nada do que lês...


"Magic" (2007)

Magia



Tenho uma moeda na palma da minha mão
Posso fazê-la desaparecer
Tenho uma carta na minha manga
Diz qual é e eu tiro-a da tua orelha
Tenho um coelho na minha cartola
Se quiseres vir aqui e ver
Isto é o que será
Isto é o que será

Tenho algemas nos meus pulsos
Em breve vou tirá-las e irei embora
Tranca-me numa caixa no teu rio
E eu erguer-me-ei cantando esta canção
Não confies em nada do que ouves
E menos ainda naquilo que vês
Isto é o que será
Isto é o que será

Tenho uma lâmina serrada brilhante
Tudo o que preciso é de um voluntário
Cortar-te-ei ao meio
Enquanto sorris de orelha a orelha
E a liberdade que tu procuraste
Vagueando como um fantasma por entre as árvores
Isto é o que será
Isto é o que será

Agora há um fogo lá bem em baixo
Mas está a subir para aqui
Por isso deixa tudo o que conheces
Leva apenas aquilo que temes
Na estrada o sol afunda-se devagar
Há corpos pendurados nas árvores
Isto é o que será
Isto é o que será

30.8.07

Enquanto aguardamos ansiosamente pela Magia de Springsteen, e já com o aperitivo de um "Radio Nowhere" que promete vir a ser um Radio Everywhere, eis q o C57 apresenta aqui a antítese da energia positiva que o novo single mostra... É, na minha opinião, uma das canções mais tristes que o Springsteen escreveu, e que consegue relatar, de uma maneira singular, o vazio, a solidão, a tristeza. O tentar preencher um amor distante (temporal e geograficamente) recorrendo aos serviços de uma prostituta, em busca de algo parecido com aquilo que ele deixou para trás no México natal. Mas nem sequer esteve perto...

Agradeço, desde já, ao Miguel Gonçalves pela tradução que aqui é apresentada.

"Reno" (2005)

Reno



Ela tirou as meias, pu-las na minha cara
Ela agarrou-me pelos tornozelos, senti-me cheio de graça
“Duzentos dólares normal,
Duzentos e cinquenta pelo cú acima”, ela disse a sorrir
Desapertou-me o cinto, puxou o cabelo para trás
E sentou-se na cama à minha frente
E disse, “Querido, como te estás a sentir, queres que vá mais devagar?”
Os meus olhos desviaram-se para a janela, para a estrada em baixo.

Senti o meu estômago a apertar-se. O sol encheu o céu
E entrou pelas cortinas do quarto. Fechei os meus olhos.
Luz do sol no Amatitlan, luz do sol pelo teu cabelo
No Vale dos Rios, o cheiro a flores encheu o ar
Cavalgamos com os cowboys, em pastagens verdes
Estava certo que o trabalho e o sorriso que vinham por baixo do teu chapéu
Era tudo o que eu precisava
Mas, de alguma forma, tudo aquilo de que precisas nunca é suficiente,
Tu e eu, Maria, aprendemos que é assim.

Ela tirou-o da boca, “Estás pronto”, disse ela
Tirou o soutien e as cuecas, molhou o dedo, meteu-o dentro dela,
E rastejou até mim na cama
Serviu-me outro uísque
E disse, “Ao melhor que já tiveste”
Rimos e fizemos um brinde
Não foi o melhor que já tive,
Nem sequer andou lá perto.

NT: Amatitlan é um Rio no México

Tradução por Miguel Gonçalves

4.7.07

Esta é uma canção que faz parte das preferidas do público feminino, incluindo verdadeiras fãs. "Secret Garden" fez parte da banda sonora do filme "Jerry McGuire", com Tom Cruise, e tornou-se num dos últimos "hits" radiofónicos de Springsteen. No entanto, quando se tornou conhecido, o tema tinha já alguns anos. As fãs de Springsteen dizem que, ao escrever esta canção, ele mostrou como conhece mesmo as mulheres, pois todas têm este "jardim secreto" que nenhum homem poderá algum dia conhecer ou alcançar. Estará sempre a um milhão de milhas de distância...




"Secret Garden" (1995)

Jardim Secreto



Ela deixar-te-à entrar em casa
Se fores bater à porta à noite
Ela deixar-te-à entrar na sua boca
Se as palavras que disseres forem as correctas
Se pagares o preço
Ela deixar-te-à entrar bem fundo
Mas há um jardim secreto que ela esconde

Ela deixar-te-à entrar no seu carro
Para darem uma volta
Ela deixar-te-à conhecer partes dela
Que te atirarão ao chão
Ela deixar-te-à entrar no seu coração
Se tiveres um martelo e um torno
Mas no seu jardim secreto, não penses duas vezes

Percorreste um milhão de milhas
Até onde chegaste?
Até aquele lugar onde não consegues lembrar-te
E não consegues esquecer

Ela guiar-te-à ao longo de um caminho
Haverá carinho no ar
Ela deixar-te-à chegar longe o suficiente
Para que saibas que ela está mesmo ali
Ela olhará para ti e sorrirá
E os seus olhos dirão
Que ela tem um jardim secreto
Onde tudo o que quiseres
Onde tudo o que precisares
Ficará para sempre
A um milhão de milhas de distância

4.6.07

Pronto, nem vou arranjar desculpas para mais esta demora. Vou apenas prometer que vou tentar que a próxima não demore tanto, até porque já tenho uma série de traduções já feitas à espera de serem publicadas. A preguiça é tramada...

A música aqui traduzida representa muito para mim. Se não fosse ela, eu provavelmente nem estaria aqui a escrever neste blog. Estava eu no meu secundário, e uma professora de Inglês levou a letra do "The River" para uma aula e distribuiu-a aos alunos, e depois passou a música e nós tínhamos de preencher as palavras q faltavam na folha. Ela levou a versão da caixa "Live...".
Eu pedi-lhe a caixa de 3 CDs emprestada para gravar em cassete. Levei a caixa para casa. Ponho no leitor de CD. Ouvem-se palmas. "Ladies and gentlemen, Bruce Springsteen and the E Street Band!". Mais palmas. Começa o piano. A minha vida nunca mais foi a mesma...



"Thunder Road" (1974)

Estrada Do Trovão



A porta bate, o vestido de Mary ondula
Como uma visão, ela dança através do alpendre enquanto o rádio toca
Roy Orbison canta para aqueles que estão sozinhos
Ei, sou eu, e quero-te apenas a ti
Não me mandes de volta para casa outra vez, eu não me consigo imaginar sozinho outra vez
Não fujas lá para dentro, querida, tu sabes muito bem porque estou aqui
Então estás assustada e pensas que talvez já não sejamos tão novos assim
Mostra um pouco de fé, há magia na noite
Tu não és uma beleza, mas, ei, tudo bem
E está tudo bem para mim

Tu podes esconder-te por baixo das tuas máscaras e estudar a tua dor
Fazer cruzes dos teus amantes, atirar rosas à chuva
Desperdiçar o teu Verão a rezar em vão
Por um salvador que emerge destas ruas

Bem, eu não sou um herói, isso está entendido
Toda a redenção que posso oferecer, rapariga, é debaixo deste capot sujo
Com uma hipótese de a fazer bem de alguma maneira
Ei, o que mais podemos fazer agora?
Senão descer o vidro e deixar o vento soprar o teu cabelo para trás
Bem, a noite está completamente aberta
E estas duas faixas levam-nos a qualquer sítio
Temos uma última hipótese de o tornar realidade
De trocar estas asas por umas rodas
Entra aí para trás: o Céu espera-nos na estrada

Vem, toma a minha mão
Nós viajamos hoje à noite para alcançar a terra prometida
Ó Estrada do Trovão, Estrada do Trovão, Estrada do Trovão
Deitada ali como um assassino ao sol
Ei, eu sei que é tarde, mas nós conseguimos se corrermos
Ó Estrada do Trovão, fica quieta, prepara-te, Estrada do Trovão

Bem, eu tenho esta guitarra e aprendi a fazê-la falar
E o meu carro está lá atrás, se estás preparada para fazer aquela longa caminhada
Do teu alpendre da frente para o meu banco da frente
A porta está aberta, mas a viagem não é de graça
E eu sei que estás sozinha e há palavras que eu não disse
Mas esta noite estaremos livres, todas as promessas serão quebradas

Havia fantasmas nos olhos de todos os rapazes que mandaste embora
Eles assombram esta poeirenta estrada da praia
Nos chassis de Chevrolets avariados
Eles gritam o teu nome à noite na rua
O teu vestido de formatura está estendido em farrapos a seus pés
E no solitário frio antes do amanhecer
Tu ouves os seus motores a rugir
Mas quando chegas ao alpendre eles já se perderam no vento
Por isso Mary, entra
Esta é uma cidade cheia de perdedores e eu vou sair daqui para ganhar!


PS: A força desta canção não se traduz. Só ouvindo se pode perceber porque esta canção é a favorita de tantos e tantos fãs de Springsteen...

11.9.06

Hoje assinala-se o 5º aniversário do mais chocante acto terrorista dos tempos modernos. Não foram apenas os EUA que foram atacados no dia 11 de Setembro de 2001. Foi a própria liberdade. Springsteen abriu a noite de tributo às vítimas do 11 de Setembro com uma canção lindíssima. Apesar de ter sido escrita no início da década de 90 para retratar o estado da sua Freehold natal, "My City Of Ruins" adequou-se, quiçá de maneira tão inesperada como assustadora, à tragédia de Nova Iorque. Sem mais palavras...


"My City Of Ruins" (2002)

Minha Cidade De R
uínas





Há um círculo vermelho de sangue
No negro frio chão
E a chuva está a cair
As portas da igreja estão completamente abertas
Eu consigo ouvir a canção do orgão
Mas a congregação já lá não está
Minha cidade de ruínas
Minha cidade de ruínas

Agora os doces sinos da misericórdia
Vagueiam pelas árvores do anoitecer
Jovens rapazes na esquina
Como folhas dispersas,
As janelas cobertas de tábuas,
As ruas vazias
Enquanto o meu irmão está no chão de joelhos
Minha cidade de ruínas
Minha cidade de ruínas

Vamos, levanta-te! Vamos, levanta-te!
Vamos, levanta-te! Vamos, levanta-te!
Vamos, levanta-te! Vamos, levanta-te!

Agora há lágrimas na almofada
Querida, onde dormimos
E tu levaste o meu coração quando partiste
Sem o teu doce beijo
A minha alma está perdida, minha amiga
Diz-me como vou começar outra vez?
A minha cidade está em ruínas
A minha cidade está em ruínas

Agora com estas mãos,
Com estas mãos,
Com estas mãos,
Eu rezo, Senhor
Com estas mãos,
Com estas mãos,
Eu rezo pela força, Senhor
Com estas mãos,
Com estas mãos,
Eu rezo pela fé, Senhor
Nós rezamos pelo Teu amor, Senhor
Nós rezamos pelos que se perderam, Senhor
Nós rezamos por este mundo, Senhor
Nós rezamos pela força, Senhor
Nós rezamos pela força, Senhor

Vamos
Vamos
Vamos, levanta-te
Vamos, levanta-te
Vamos, levanta-te
Vamos, levanta-te
Vamos, levanta-te
Vamos, levanta-te
Vamos, levanta-te
Vamos, levanta-te
Vamos, levanta-te

7.8.06


Continuando a explorar o belíssimo livro de contos que é o "Devils & Dust", segui a sugestão do Márcio e acabei a tradução de uma das mais belas histórias do album. Nem preciso de escrever mais nada. Ponham o cd, escolham a faixa 5, e leiam aqui as legendas...

"Black Cowboys" (2005)

Cowboys Negros

O recreio de Rainey Williams ficava entre as ruas de Mott Haven
onde ele corria passando por velas derretidas e coroas de flores,
nomes e fotografias dos rostos de jovens negros,
cuja morte e sangue consagraram estes lugares.

A mãe de Rainey dizia, "Rainey, fica a meu lado,
pois tu és a minha benção, tu és o meu orgulho.
É o teu amor aqui que mantém a minha alma viva.
Quero que venhas para casa da escola e fiques cá dentro."

Rainey faz os seus trabalhos e arruma os seus livros.
Havia um canal que exibia um filme de cowboys todos os dias.
Lynette trazia-lhe para casa livros dos cowboys negros da zona de Oklahoma
e dos batedores Seminole que combateram as tribos das Grandes Planícies.

Chega o Verão e os dias duram mais,
Rainey sempre teve o sorriso da sua mãe para se apoiar.
Ao longo de uma rua de balas perdidas ele fazia o seu caminho,
para o calor dos braços dela ao fim de cada dia.

Chega o Outono, a chuva inundou estes lares.
Aqui no vale de Ezequiel dos ossos molhados,
caiu com força e sombria até ao chão.
Caiu sem qualquer som.

Lynette alinhou com um homem cujo negócio era a avenida,
cujo sorriso estava fixo num rosto que nunca era apanhado desprevenido.
Junto aos canos debaixo do lava-louças, os seus segredos ele guardava.
Durante o dia, atrás de cortinas corridas, no quarto de Lynette ele dormia.

Então ela perdeu-se nos dias.
O sorriso no qual Rainey se apoiava foi desaparecendo.
Os braços que o seguravam não eram mais o seu lar.
Ele ficava à noite com a sua cabeça encostada ao peito dela a ouvir o fantasma nos seus ossos.

Na cozinha, Rainey deslizou a sua mão por entre os canos.
De um saco castanho tirou quinhentas notas e enfiou-as no bolso do seu casaco,
ficou na escuridão ao pé da cama da sua mãe,
afagou-lhe o cabelo e beijou os seus olhos.

No crepúsculo, Rainey caminhou até à estação em ruas de pedra.
Através da Pensilvânia e do Ohio o seu comboio vagueou.
Através das pequenas cidades de Indiana o grande comboio arrastou-se,
enquanto ele deitou a sua cabeça para trás no seu banco e dormiu.

Ele acordou e as cidades deram lugar a verdes campos de lama,
milho e algodão e um interminável nada pelo meio
Por cima das colinas cheias de sulcos do Oklahoma o sol vermelho deslizou e foi embora.
A lua levantou-se e despiu a terra até aos seus ossos.

10.7.06

Hoje assiste-se ao renascimento do Channel 57. Depois de mais de um ano de actividade, justificado pelo nascimento do meu filho e pela minha própria preguiça, eis-nos de volta, qual E Street Band em 1999.

Alguns dos poucos leitores do blog manifestaram o desejo de o voltar a ver activo e isso foi o principal motivo para este regresso, passado tanto tempo.

Springsteen, entretanto, lançou "We Shall Overcome: the Seeger Sessions" de homenagem a Pete Seeger. Uma vez que este blog se dedica às palavras de Springsteen, vou regressar às traduções tal como parti, há mais de um ano atrás: com Devils & Dust.

"Jesus Was An Only Son" é uma canção mais especial para mim agora do que quando a ouvi pela primeira vez. A experiência de ser pai muda tudo. Este é um lugar-comum perfeitamente verdadeiro, e o nosso próprio Springsteen já o referiu por várias vezes. Falar de Jesus na sua condição de filho de Maria e não de filho de Deus, é algo pouco visto. Springsteen fá-lo aqui com o dom que só ele tem, tornando a dimensão humana de Jesus num plano não inferior à sua condição divina, e revelando o amor de e pela sua mãe de uma forma poderosa e verdadeira. Mais palavras para quê? O que interessa vem já a seguir...

"Jesus Was An Only Son" (2005)

Jesus Foi Filho Único



Bem, Jesus foi filho único
Enquanto subia o Monte do Calvário
A sua mãe Maria caminhando a seu lado
No caminho onde o seu sangue era derramado

Jesus foi filho único
Nas colinas de Nazaré
Enquanto ele se deitava a ler os Salmos de David
Seguro aos pés de sua mãe

A sua mãe rezava "Dorme aconchegado, meu filho, dorme bem.
Porque eu estarei a teu lado.
Não deixarei que nenhuma sombra, nenhuma escuridão, nenhum dobrar de sino
Atravesse os teus sonhos esta noite"

No jardim de Getsemani,
Ele rezou pela vida que nunca viveria
Ele suplicou ao seu Pai celestial
Que removesse a taça da morte dos seus lábios

Agora, há uma perda que nunca poderá ser reparada
Um destino que nunca poderá ser alcançado
Uma luz que nunca encontrarás no rosto de uma mãe
O mar cuja distância não pode ser rompida

Bem, Jesus beijou as mãos de sua mãe
E murmurou "Mãe, por favor, segura as tuas lágrimas.
Lembra-te que a alma do universo
Desejou um mundo e ele apareceu."

1.4.05

Greetings!

Com o novo álbum à espreita, o Channel 57 não podia ficar mudo. Depois de ouvir "Devils & Dust" em ante-estreia na AOL, junto-me aos inúmeros que esperam ansiosamente pelo resto. Este promete ser mais um álbum marcante da longa carreira do nosso Springsteen, mas os temas, a avaliar por esta primeira amostra, prometem vir a ser bastante diferentes de tudo a que ele nos tem habituado. Em 1a. mão, aqui fica a tradução de "Devils & Dust"! Esta é uma canção intrigante e que pode ser interpretada de várias formas: será alguém prestes a suicidar-se por não aguentar a dor de perder alguém que ama? será o assassino desse alguém que ama? ou será apenas um sonho? Comentários precisam-se...

"Devils & Dust" (2005)

Diabos e Poeira



Tenho o meu dedo no gatilho
Mas não sei em quem confiar
Quando olho para os teus olhos
Apenas lá estão diabos e poeira

Estamos muito, muito longe de casa, Bobbie
A casa está muito, muito longe de nós
Sinto um vento sujo a soprar
Diabos e poeira

Eu tenho Deus do meu lado
Eu estou apenas a tentar sobreviver
E se aquilo que fazes para sobreviver
Mata as coisas que amas
O medo é uma coisa poderosa
Pode tornar o teu coração negro, podes acreditar
Pegará na tua alma cheia de Deus
E enchê-la-à de diabos e poeira

Eu sonhei contigo na noite passada
Num campo de sangue e pedra
O sangue começou a secar
O cheiro começou a levantar-se

Eu sonhei contigo na noite passada
Num campo de lama e ossos
O teu sangue começou a secar
O cheiro começou a levantar-se

Temos Deus do nosso lado
Estamos apenas a tentar sobreviver
E se aquilo que fazes para sobreviver
Mata as coisas que amas
O medo é uma coisa poderosa
Tornará o teu coração negro, podes acreditar
Pegará na tua alma cheia de Deus
Enchê-la-à de diabos e poeira

Cada mulher e cada homem
Querem tomar a atitude correcta
Encontrar o amor que Deus deixou
E a fé que Ele ordena

Tenho o meu dedo no gatilho
E esta noite, apenas fé não é suficiente
Quando olho para dentro do meu coração
Apenas lá estão diabos e poeira

Bem, eu tenho deus do meu lado
E estou apenas a tentar sobreviver
E se aqiulo que fazes para sobreviver
Mata as coisas que amas
O medo é uma coisa perigosa
Pode tornar o teu coração negro, podes acreditar
Pegará na tua alma cheia de Deus
Enchê-la-à de diabos e poeira

Pegará na tua alma cheia de Deus
Enchê-la-à de diabos e poeira

13.2.05

Greetings!

Desta vez demorou menos do que nas últimas. Já tinha o Lourenço à perna e com o pedido do Alfredo, eis q a actualização surge. Esta música poderia ser dedidada a Águeda, a minha cidade-natal da qual tanto falo. Mas não é, porque a cidade da canção é triste, onde estão a fechar empresas e lojas, e é um local onde já ninguém quer viver. Águeda não é obviamente assim... :)
Desta canção que descreve a vida em e a morte da cidade-natal do narrador, podemos encontrar muitos pontos em comum com a Freehold natal de Springsteen. Uma letra simples e eficaz a transmitir a mensagem naquela que foi a canção mais calma do álbum que lançou Springsteen para a ribalta e que o deu a conhecer à grande maioria dos fãs de hoje. Especialmente para o Alfredo, "My Hometown"...

"My Hometown" (1984)

Eu tinha 8 anos de idade e andava com
Uns centavos na minha mão
Até à paragem de autocarros para ir buscar
Um jornal para o meu velho

Eu sentava-me no seu colo naquele grande Buick
E guiava enquanto andávamos pela cidade
Ele despenteava-me o cabelo e dizia
"Filho, olha bem à tua volta!"

Esta é a tua cidade-natal
Esta é a tua cidade-natal
Esta é a tua cidade-natal
Esta é a tua cidade-natal

Em '65, a tensão era alta
No meu liceu
Havia muitas rixas entre pretos e brancos
Não havia nada que pudesses fazer

Dois carros parados num semáforo num Sábado à noite
No banco de trás estava uma arma
Palavras eram passadas através de um tiro de caçadeira
Tempos conturbados tinham chegado

À minha cidade-natal
Minha cidade-natal
Minha cidade-natal
Minha cidade-natal

Agora as janelas caiadas da Rua Principal e as lojas vazias
Parece que já não há ninguém que queira mais cá vir
Eles estão a fechar a fábrica têxtil do outro lado do caminho de ferro
O encarregado diz que estes empregos estão a ir-se, miúdos, e não irão voltar à

Vossa cidade-natal
Vossa cidade-natal
Vossa cidade-natal
Vossa cidade-natal

Na última noite eu e a Kate deitámo-nos na cama
A falar sobre sair daqui
Fazer as nossas malas,
Talvez rumar a sul

Tenho 35 anos, temos um rapaz nosso agora
Ontem à noite eu sentei-o atrás do volante e disse
"Filho, olha bem à tua volta:"

"Esta é a tua cidade-natal..."

5.1.05

Greetings!

(Estou a escrever este post pela 2a. vez, já que o raio do blogger perdeu a 1a. versão)

Ano novo, post novo! Abaixo a preguiça! Mais de três meses depois do último post, eis que o blog está reactivado.
Para recomeçar, nada melhor que uma das mais brilhantes e sombrias peças literárias jamais cantadas. Escrita originalmentepara a banda sonora do excelente filme "A última caminhada" de Tim Robbins (um fã confesso), esta "Dead Man Walking"é uma canção que consegue transmitir o desespero da alma, a angústia da mente e o medo de alguém que está a viver osseus últimos momentos. Um ambiente musical do mais sombrio "Nebraska" e uma letra do mais brilhante Springsteen, tornameste "Dead Man Walking" um dos meus temas favoritos de sempre...

"Dead Man Walking" (1995)

Homem Morto A Caminhar

Há um cavalo pálido a chegar
E eu vou viajar nele
Levantar-me-ei de manhã
Com o meu destino traçado

Sou um homem morto a caminhar
Sou um homem morto a caminhar

Na paróquia de St.James
Eu nasci e fui tornado cristão
Eu tenho a minha história
E, senhor, não preciso que você a ouça

Sou apenas um homem morto a falar
Sou apenas um homem morto a falar

Uma vez tive um emprego, tive uma rapariga
Mas por entre os nossos sonhos e acções
Encontra-se este mundo

Na floresta profunda
O sangue e as lágrimas deles precipitaram-se sobre mim
Tudo o que podia sentir eram as drogas e a caçadeira
E o meu medo bem dentro de mim
Como um homem morto a falar

Debaixo de um céu de Verão os meus olhos tornaram-se negros
Irmã, eu não vou pedir por perdão
Os meus pecados são tudo o que tenho

Agora as nuvens por cima da minha prisão
Movem-se lentamente através do céu
Há um novo dia a chegar
E os meus sonhos estão completos esta noite

9.9.04

Greetings!

De volta depois das férias. Ok, eu confesso, não foram apenas as férias o motivo de tão longa falta de actualização do canal 57. A minha preguiça ajudou à parcimónia de posts.
A noite, assim como a estrada, é um dos temas favoritos do Springsteen. Depois de "Drive All Night", mais uma canção onde a parte do dia iluminada pela lua é referência. A noite pode servir de abrigo, de disfarce, de desculpa. Pode servir, neste caso, de refúgio de amantes. A sofreguidão e intensidade da paixão descrita nesta canção é algo que não nos deixa respirar, que nos consome e agita, que não nos deixa indiferentes. Escrita em parceria com Patti Smith, "Because the night" (pode ser encontrada no album "Easter" e foi lançado como single em 1978, tendo atingido o top 10 americano) nunca foi lançada num album de estúdio do Springsteen, mas a versão ao vivo q se encontra na caixa "Live 1975-85" é lendária para súbditos como nós. Porque a noite, também pertence aos fãs...

"Because the Night" (1977)

Porque A Noite

Aceita-me agora, querida, aqui como estou
Puxa-me para perto de ti, tenta e compreende
Desejo é fome, é o fogo que respiro
Amor é o banquete onde nos alimentamos
Anda agora, tenta e compreende

A maneira que me sinto quando estou na tua mão
Toma a minha mão, vem escondida
Eles não te podem magoar agora, não te podem magoar agora, não te podem magoar agora

Porque a noite pertence aos amantes,
Porque a noite pertence à luxúria,
Porque a noite pertence aos amantes,
Porque a noite pertence-nos a nós

Terei dúvidas quando estou sozinho?
Amor é um toque no telefone
Amor é um anjo disfarçado de luxúria,
Aqui na nossa cama até a manhã chegar

Anda agora, tenta e compreende
A maneira que me sinto sob o teu comando
Toma a minha mão enquanto o sol desce
Eles não te podem tocar agora, não te podem tocar agora, não te podem tocar agora

Porque a noite pertence aos amantes,
Porque a noite pertence à luxúria,
Porque a noite pertence aos amantes,
Porque a noite pertence-nos a nós

Com amor nós dormimos, com a dúvida o círculo vicioso dá voltas e voltas
Sem ti eu não consigo viver, perdoa a ânsia, ardente
Eu acredito no tempo, demasiado real para sentir,
Por isso toca-me agora, toca-me agora, toca-me agora

Porque a noite pertence aos amantes,
Porque a noite pertence à luxúria,
Porque a noite pertence aos amantes,
Porque a noite pertence-nos a nós

17.7.04

Greetings!
 
No início da década de 80, o álbum "The River" marcou uma viragem na música do Springsteen, em termos melódicos e líricos. Uma das músicas desse album marcou uma discussão interessante entre os membros da mailing list sobre se a frase "Eu juro que conduziria toda a noite apenas para te comprar uns sapatos" era completamente despropositada ou se mostrava uma sensibilidade que só as mulheres conseguem compreender. Eu continuo na dúvida, mas gosto muito de "Drive All Night"...
 
 
"Drive All Night" (1980)

Conduzo Toda A Noite

Quando te perdi, querida, por vezes penso que perdi a minha coragem também
E desejei que Deus me tivesse enviado uma palavra, enviado algo que tenho tenho medo de perder
Deitados no calor da noite, como prisioneiros durante todas as nossas vidas
Eu sinto arrepios na minha espinha e tudo o que quero fazer é abraçar-te com força

Eu juro que conduziria toda a noite apenas para te comprar uns sapatos
E para provar os teus meigos encantos
E apenas quero dormir esta noite mais uma vez nos teus braços

Hoje à noite há anjos caídos e eles estão à nossa espera lá na rua
Hoje à noite há estranhos que chamam, ouço-os a chorar na derrota
Deixa-os ir, deixa-os ir, deixa-os ir para fazer as suas danças dos mortos
Deixa-os ir bem à frente
Apenas enxuga os teus olhos, rapariga, e anda, anda, anda, vamos para a cama
 
Querida, querida, querida
Eu juro que conduziria toda a noite apenas para te comprar uns sapatos
E para provar os teus meigos encantos
E apenas quero dormir esta noite mais uma vez nos teus braços

Há máquinas e há fogo à espera à saída da cidade
Estão lá para serem contratados, mas querida eles não nos podem magoar agora
Porque tu tens, tu tens, tu tens o meu, o meu amor, rapariga
Tu tens o meu amor, rapariga
Através do vento, através da chuva, da neve, do vento, da chuva
Tu tens, tu tens o meu, o meu amor, ó rapariga tu tens o meu amor
Tu tens, tu tens o meu amor, ó rapariga tu tens o meu amor
Tu tens, tu tens o meu amor, ó rapariga tu tens o meu amor
Tu tens, tu tens o meu amor, ó rapariga tu tens o meu amor
Coração e alma, coração e alma
Coração e alma, coração e alma
Não chores agora
Não chores agora
Não chores agora
Não chores agora...

29.6.04

Greetings!
Estas prolongadas ausências estão a tornar-se num mau hábito, e como castigo para mim próprio, tive dose dupla de trabalho.
O Springsteen tem esta capacidade extraordinária de nos surpreender quando menos esperamos. A caixa de "Tracks" teve algumas surpresas, e embora o "Brothers Under The Bridges" de 1983 já fosse conhecido, o "Brothers Under The Bridge" de 1995 foi uma das surpresas para a maior parte das pessoas. 12 anos de diferença notam-se nas duas canções que são dois capítulos da mesma história, tão diferentes, mas tão complementares. Em 1983 sonhava-se com carros e raparigas, sentia-se o companheirismo e toda a emoção da juventude. Em 1995, a tristeza, as recordações da guerra, o esfumar dos sonhos, as mesmas personagens, mas apenas uma ponte...


"Brothers Under The Bridges" (1983)

Irmãos Debaixo Das Pontes

Bem, em cada Primavera, quando o tempo fica quente
Eles caem na cidade directamente das suas quintas
Conduzindo 455s, a andar duro e com força
Eles foram construídos do nada nas suas barracas de ferramentas durante todo o Inverno
Debaixo das armações a beber a cerveja e o vinho
Alguns vieram para as corridas, outros apenas para passar o tempo
Com os irmãos debaixo das pontes

Eu e o Tommy tínhamos apenas catorze anos, ainda não tínhamos as nossas cartas
As nossas paredes estavam cobertas de fotografias de carros que iríamos ter
Nós escutávamos e esperávamos para que aquela auto-estrada rugisse e estremecesse
Enquanto eles conduziam através da cidade nas folgas do fim-de-semana
Trazendo raparigas com aquele olhar distante nos seus olhos
Agora, juntos, debaixo das armações eles estariam a rir na noite
Com os irmãos debaixo das pontes

Bem, eu e o meu irmão costumávamos apanhar uma boleia na pickup do Joey até aos limites da cidade
E víamos a partir da erva alta os desafios a serem feitos e os duelos a serem travados
Costumávamos pedir boleia de volta para casa, entrar sem ninguém ver, e metermo-nos na cama antes da nossa mãe chegar
E ficávamos ali deitados na noite a falar sobre como poderíamos um dia ser um deles
Sim, um dia correr com os irmãos debaixo das pontes

Bem, agora eu ouço um grito à distância e o som de pés a marchar, que cá estão ou já foram
Bem, estou aqui sentado nesta auto-estrada a pensar, apenas a pensar onde, onde é que eu pertenço
Hoje à noite aqui em cima em Signal Hill
Eu observo um jovem com uma camisa vermelha a caminhar através da noite tão quieta
Põe o seu casaco à volta da sua rapariga enquanto o vento de Outono envia um arrepio
Através dos irmãos debaixo das pontes

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"Brothers Under The Bridge" (1995)

Irmãos Debaixo Da Ponte

Saigão, tudo foi perdido
As mesmas máquinas de Coca-Cola das ruas em que cresci
Atravessando um desfiladeiro de Mesquite, caminhámos ao longo da colina
Eu e os irmãos debaixo da ponte

O acampamento fica a uma hora de caminho da estrada mais próxima para a cidade
Aqui há demasiado desfiladeiro e matagal para os helicópteros CHP aterrarem
Não estou à procura de nada, apenas quero viver
Eu e os irmãos debaixo da ponte

Com a chegada de Santa Ana, homem, aquele matagal seco irá acender-se
Billy Devon ardeu na sua própria fogueira do acampamento numa noite de Inverno
Enterrámos o seu corpo na pedra branca lá em cima ao longo da colina
Eu e os irmãos debaixo da ponte

Estava farto da cidade e da vida das ruas
Por nada, tu acabas no lado errado da faca de alguém
Agora, eu não quero sarilhos e não tenho nenhuns para dar
Eu e os irmãos debaixo da ponte

Eu vim para casa em '72
Tu eras apenas uma linda luz nos escuros olhos de azul da tua mãe
Eu fiquei lá no alcatrão, eu era apenas um miúdo
Eu e os irmãos debaixo da ponte

Chega o Dia dos Veteranos, eu sento-me nas bancadas na minha farda triste
Seguro na mão da tua mãe quando eles passam com o vermelho, branco e azul
Um minutos estás mesmo aqui... e então algo se perde...

20.5.04

Greetings!

Voltando ao final da década de 70, notavam-se alterações nos assuntos das letras do Springsteen, depois de toda a raiva contida demonstrada no "Darkness...". Parece que uma nova fase na vida e na música dele começou com o "The River", onde escrevia sobre assuntos e situações que lhe diziam directamente respeito, mas também tentava retratar emoções ou possíveis situações que lhe poderiam acontecer a ele. Mais uma vez, uma canção sobre perda, mas uma perda que não aconteceu na realidade, mas sobre a qual a personagem da canção se apercebeu que era algo possível e isso era o suficiente para lhe tirar o sono durante a noite. Infelizmente, uma canção que no nosso país é a imagem das tragédias que todos os anos acontecem nas estradas Portuguesas...

"Wreck On The Highway" (1980)

Desastre Na Auto-Estrada

Ontem à noite eu estava a conduzir
Vinha para casa ao fim do dia de trabalho
Eu viajava sozinho através dos chuviscos
Numa desertificada extensão de estrada de duas faixas no condado
Quando me deparei com um desastre na auto-estrada

Havia sangue e vidro por toda a parte
E não estava ali ninguém a não ser eu
Enquanto a chuva desabava forte e fria
Vi um rapaz deitado ao lado da estrada
Ele gritou "Senhor, não me pode ajudar, por favor?"

Finalmente, uma ambulância veio e levou-o para o hospital de Riverside
Eu observei enquanto o levavam embora
E pensei numa namorada ou numa jovem esposa
E um agente a bater à porta no meio da noite
Para dizer que o teu amor morreu num desastre na auto-estrada

Por vezes fico sentado na escuridão
E observo a minha querida enquanto ela dorme
Então subo para a cama e abraço-a com força
Fico apenas ali acordado no meio da noite
A pensar no desastre na auto-estrada

5.5.04

Greetings!

A procura e a estrada foram sempre pontos centrais na escrita do Springsteen, sobretudo no início da sua carreira. Há uma canção q sempre me despertou curiosidade, pelos diversos sentidos q parece ter. O narrador da história de "Iceman" parece alguém completamente destroçado ao ponto de afirmar q já nasceu morto. Mas mesmo assim, prossegue a sua procura, porque é a procura que lhe permite viver. Uma letra perturbante numa canção genialmente sombria do início da carreira e q podemos encontrar no disco 1 de "Tracks"

"Iceman" (1977)

Homem-gelo

Cidade adormecida não tem a coragem para se mexer
Querida, este vazio já foi julgado
Eu quero sair esta noite, quero saber aquilo que tenho
Tu és uma parte estranha de mim, tu és a rapariga de um pregador
E eu não quero qualquer parte deste mundo mecânico
Tenho os meus braços bem abertos e o meu sangue corre quente
Tomaremos a estrada da meia-noite directamente para a porta do diabo
E nem mesmo os anjos brancos do Éden com as suas espadas flamejantes
Nos poderão impedir de atingir a cidade neste velho e sujo Ford
Bem, não é preciso ter coragem quando tu não tens nada para guardar
Eu tenho uma lápide nos meus olhos e estou a correr mesmo no duro
A minha querida era uma amante e o mundo acabou com ela

Uma vez tentaram roubar o meu coração, arrancá-lo à força da minha cabeça
Bem querida, eles não sabiam que eu já nasci morto
Eu sou o homem-gelo, a lutar pelo direito a viver
Eu digo que melhor do que as gloriosas estradas do Céu
Melhor ainda do que viajar na poeira pelos limites do inferno
Melhor do que a linha brilhante da auto-estrada
Melhor do que as sombras da igreja do teu pai
Melhor do que a espera
Querida, melhor ainda é a procura

18.4.04

Greetings!

Depois da reprimenda do Lourenço por mais uma longa paragem deste blog, eis que volto à carga com algo que servirá, de alguma forma, para o compensar. "Born In The U.S.A." é o responsável por 99% dos casos de Brucemania que assolam a nossa mailing list, e foi o album que projectou Springsteen à escala planetária. Um album que, embora na minha opinião não seja dos seus melhores trabalhos, constituiu o maior sucesso comercial de sempre da carreira de Springsteen, com 7 singles retirados dele e uma série destes a chegar ao 1o. lugar de vários tops, onde "Dancing In The Dark", o primeiro dos singles, ocupa lugar de destaque. Em "The River", já se notava uma aproximação a um som mais comercial, mas o magnífico "Nebraska" de 1982 veio mostrar o lado sombrio, quiçá o mais honesto e verdadeiro, do universo Springsteen. Mas o homem tem o condão de transformar a noite em dia, e algumas canções que foram escritas para o "Nebraska" e que acabaram por não ser incluídas nele, foram aproveitadas para o disco seguinte, "Born In The U.S.A.". Só mesmo o Springsteen pode gravar a mesma canção para dois albums tão diferentes e, no entanto, fazer parecer que estão no sítio certo. Uma dessas canções foi aquela que deu o nome ao album. Mas o original, gravado nas sessões do "Nebraska" e que está na caixa "Tracks", é, para mim, a melhor de todas e aquela que melhor exprime o seu sentico. E para que, de uma vez por todas, ninguém pense que "Born In The U.S.A." é um hino ao patriotismo bacoco, aqui está a letra, em Português...

"Born In The U.S.A." (1981)

Nascido nos E.U.A.

Nascido numa cidade de homens mortos
O primeiro pontapé que apanhei foi quando caí ao chão
Acabar como um cão que foi espancado demasiadas vezes
Até que acabas por gastar metade da tua vida apenas a encobrir
Nascido nos E.U.A., Eu nasci nos E.U.A.
Eu nasci nos E.U.A., Nascido nos E.U.A.

Meti-me num aperto na minha pequena terra natal
Por isso eles puseram uma arma na minha mão
Mandaram-me para uma terra estrangeira
Para ir matar os homens amarelos

Nascido nos E.U.A., Eu nasci nos E.U.A.
Eu nasci nos E.U.A., Nascido nos E.U.A.

Voltei para casa, para a refinaria
O capataz disse "Filho, se dependesse de mim..."
Fui ter com o homem da Associação de Veteranos
Ele disse "Filho, será que não percebes..."

Eu tinha um irmão em Khe Sahn
A lutar contra os Vietcong
Eles ainda lá estão, ele já cá não está

Ele tinha uma mulher que amava em Saigão
Tenho uma fotografia dele nos seus braços

Lá na sombra da penitenciária
Perto dos gases dos fogos da refinaria
Estou dez anos a queimar-me na estrada
Nenhum sítio para fugir, não tenho nenhum sítio para ir

Nascido nos E.U.A., Eu nasci nos E.U.A.
Nascido nos E.U.A., Sou um pai que há muito se foi nos E.U.A.
Nascido nos E.U.A., Nascido nos E.U.A.
Nascido nos E.U.A., Sou um pai que há muito se foi nos E.U.A.

16.3.04

Greetings!

Mais uma longa ausência deste blog pelos mesmos motivos de sempre somados ao bom motivo de ter estado de férias! Uma das minhas canções preferidas do "The Rising" é também aquela q é a excepção quando eu esperava q fosse a regra desse album, depois de saber q seria produzido pelo Brendan O'Brien. Ou seja, depois das colaborações desse senhor com os Pearl Jam e Soundgarden, entre outros, esperava um som forte e um rock cru em "The Rising", mas há apenas uma canção destas em todo o album, e é uma grande canção, aqui, ou mais à frente, lá na estrada...

"Further On (Up The Road)" (2002)

"Mais à frente (lá na estrada)"

Onde a estrada é escura
E a semente é semeada
Onde a arma está destravada
E a bala está fria
Onde as milhas estão marcadas a sangue e ouro
Encontrar-me-ei contigo mais à frente, lá na estrada

Peguei no meu fato de homem morto
E no meu anel da caveira sorridente
As minhas botas de cemitério da sorte
E uma canção para cantar
Tenho uma canção para cantar
Para me manter longe do frio
E encontrar-me-ei contigo mais à frente, lá na estrada

Mais à frente, lá na estrada
Mais à frente, lá na estrada
Onde o caminho é escuro
E a noite é fria
Numa manhã de sol,
Levantar-nos-emos, eu sei
E encontrar-me-ei contigo mais à frente, lá na estrada

Eu estive lá fora no deserto
Apenas a cumprir a minha pena
Procurando através da poeira
À procura de um sinal
Se há uma luz lá mais à frente,
Bem, irmão, eu não sei
Mas tenho esta febre,
A arder na minha alma
Por isso peguemos nos bons tempos enquanto eles passam
E encontrar-me-ei contigo mais à frente, lá na estrada

Mais à frente, lá na estrada
Mais à frente, lá na estrada
Mais à frente, lá na estrada
Mais à frente, lá na estrada
Numa manhã de sol,
Levantar-nos-emos, eu sei
E encontrar-me-ei contigo mais à frente, lá na estrada
Numa manhã de sol,
Levantar-nos-emos, eu sei
E encontrar-me-ei contigo mais à frente, lá na estrada

16.2.04

Greetings!

Depois de uma pausa mais longa do que o habitual, mais uma vez motivada por motivos profissionais, eis que volto antes das minhas férias que terão início na próxima semana. Para o álbum "Born In The USA", Springsteen escreveu mais de uma centena de canções, o que significa que muito material dessa altura não chegou a ver a luz do dia ou apenas o fez com o lançamento do "Tracks" ou em lados B. Uma das muitas canções deste lote contém aquele que, para Max Weinberg, é um o verso mais bonito escrito pelo Springsteen. Se é o mais bonito, não sei, mas sei que este "This Hardland" tresanda a esperança, liberdade e fuga numa terra dura. O tal verso, o último, é ele próprio um hino à resistência humana. E nós cá continuamos: fortes, famintos e vivos, nesta terra dura.


"This Hardland"(1984)

Esta terra dura

Ei, senhor, pode dizer-me o que aconteceu às sementes que eu semeei?
Pode dar-me uma razão, senhor, para elas nunca terem crescido?
Elas apenas foram sopradas de cidade em cidade
Até estarem de volta a estes campos
Sim, onde caem da minha mão
De volta ao solo desta terra dura

Eu e a minha irmã, de Germantown, sim, nós viajámos
Fizemos a nossa cama a partir das rochas nas cavidades da montanha
Temos sido soprados de cidade em cidade
À procura de um lugar para assentar
Onde o Sol rompa por entre a nuvem
E caia como um círculo
Como um círculo de fogo neste terra dura

Agora, até a chuva não aparece
Não aparece por aqui nunca mais
E o único som à noite é o vento
Que faz bater a porta do alpendre de trás
Ele apenas te mexe como se te quisesse atirar ao chão com um sopro
Rodopiando e agitando a areia com força
Deixando todos aqueles espantalhos estendidos no chão
Estendidos no chão, na sujidade desta terra dura

De um edifício lá em cima na colina
Eu consigo ouvir um leitor de cassetes a estourar "Home on the Range"
Eu consigo ver aqueles helicópteros Bar-M
A varrer baixinho através das planícies
Sou eu e tu, Frank, estamos à procura de gado perdido
As doenças do gado, rodopiando e agitando a areia com força
Estamos a cavalgar no moinho de vento à procura de um tesouro perdido
Bem lá para Sul do Rio Grande
Estamos a cavalgar através desse rio, ao luar
Até às margens desta terra dura

Ei Frank, não queres fazer as tuas malas e encontrar-te comigo hoje à noite no Hall da Liberdade
Apenas um beijo teu, meu irmão, e caminharemos até cairmos
Dormiremos nos campos, dormiremos ao pé dos rios e na manhã faremos um plano
Bem, se não conseguires
Fica forte, fica faminto, fica vivo
Se conseguires
E encontra-me num sonho desta terra dura